Quando a Lealdade às nossas Mães significa Lealdade à nossa opressão: como nos libertarmos por Bethany Webster

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Todas as crianças são leais às suas mães. Elas precisam que ela sobreviva. Quanto mais stressada for uma mãe, menos disponível estará emocionalmente para o seu filho. É possível que nesta dinâmica os filhos tenham de desenvolver estratégias para conseguir lidar com o stress da mãe. Estas estratégias podem ainda estar activadas em nós enquanto adultos, causando dor e frustração.

Como estratégia, as crianças podem desenvolver algo semelhante daquilo que conhecemos como “o sonho impossível”, a crença de que se apenas demonstrares lealdade para com a mãe, absorvendo as suas crenças e dores como próprias, então ela um dia irá reconhecer-nos e amar-nos como desejamos que ela nos ame. Esta é a perspectiva da criança, mas tem um enorme poder para a nossa vida dado que foi desenvolvida desde pequena.

Até a um certo ponto, precisamos compreender que estas estratégias não levam a mãe a mudar. Elas não funcionam assim.

A maior mudança pode ocorrer quando vemos que é seguro largarmos a lealdade aos padrões que achámos que nos iriam garantir a maternidade que precisamos:

– Ficarmos para sempre pequenas
– Sentirmos falta de amor por nós
– Sermos medrosas e hiper vigilantes
– Acreditar na escassez
– Alimentar a escassez na nossa vida
– Sermos as vítimas
– Resolver o problemas de todos
– Suprimir os nossos sentimentos e respostas

Estes padrões podem ter sido ensinados repetitivamente pela nossa mãe OU podemos tê-los aprendido apenas observando o seu comportamento. Muito provavelmente, estes padrões foram passados pela sua própria mãe ou pelo seu ambiente cultural. Porque vivemos numa sociedade patriarcal que nos diz que as mulheres são “inferiores” e todas nós carregamos essas crenças de alguma forma. (Elas podem ainda ser mais destruidoras se a nossa mãe não era/é saudável ou tem problemas mentais). Estes padrões são muito difíceis de deixar ir, dado que, de certa forma, deixá-los ir significa “deixar ir a mãe” – e para a nossa consciência e para a nossa criança interior isto pode assemelhar-se a uma morte. Por exemplo, se a nossa mãe era muito medrosa, podemos de forma inconsciente absorver os seus medos de forma a nos sentirmos próxima dela. Deixar ir esta estratégia dos medos pode ser assustador, dado que estaremos a deixar ir a nossa própria mãe. Outro exemplo é o deixar a auto-culpa. Se somos ensinados a nos culparmos e a sermos recompensados por isso, deixar ir esta estratégia pode provocar o sentimento de que estamos a trair a nossa mãe.

Dado que estes padrões estão associados à forma como somos nutridos, eles próprios começam a representar, de forma inconsciente, a presença da nossa mãe nas nossas vidas. Estes padrões podem trazer-nos aprovação temporária, validação ou aceitação de forma pontual. Mas como adultos, eles apenas servem para nos manter de cabeça baixa. Pois eles foram formados tão cedo no nosso desenvolvimento que a tendência é que estas crenças e padrões permanecem de forma inconsciente e podem ficar por anos nas nossas vidas até vermos a sua origem. Uma das coisas mais importantes será o de ver como estas estratégias e padrões não nos trouxeram o que mais queríamos – que a nossa mãe tivesse estado presente quando precisámos dela. Quando chorarmos essa perda, podemos-nos libertar para vivermos e agirmos de novas formas.

Existem 3 partes a cumprir para deixarmos ir estes padrões persistentes:

1) Agradecer de forma genuína a esses padrões por nos terem servido.

Exemplos:
– A ansiedade de ter o amor da mãe pode-nos ter ajudado a alcançar muito no mundo.
– Ser um cuidador emocional pode-nos ter ajudado a desenvolver a capacidade de empatia com os sentimentos dos outros.
– O controlo ou a rigidez pode-nos ter ajudado a ter a capacidade de fazermos muitas coisas.

2) Entender que aquilo que estamos a tentar alcançar inconscientemente com o padrão é impossível.

Se calhar a parte mais intensa deste processo é percebermos que não importa o quanto fomos leais a esses padrões, pois eles não nos trouxeram a mãe que queríamos ou precisávamos. Fosse o que fosse que estivesse a acontecer na nossa família quando éramos crianças, nunca foi sobre nós. (Embora essa seja a única forma das crianças interpretarem formas de abandono ou abuso que é tudo sobre elas). Quando na realidade, é na realidade sobre o que está a acontecer com os pais, situações sobre as quais não tivemos nenhum controlo enquanto crianças. A verdade é que por mais bonzinhos que fossemos enquanto crianças (por mais inteligentes, bonitos, talentosos, bem-comportados, etc) isso nunca iria mudar a situação da família tal como precisávamos para termos o que queríamos. É por isso que as únicas pessoas que tinham o poder na situação eram os adultos cujas decisões e escolhas tiveram impacto em nós enquanto crianças. Fosse o que fosse que estivesse a acontecer no nosso ambiente familiar enquanto crianças, não era a nossa culpa e nós não tínhamos poder nenhum em mudar nada.

Aceitar a nossa impotência quando éramos crianças é um enorme passo para a liberdade! A incapacidade dos nossos pais de nos darem o que precisámos nada tem a ver connosco. É necessário chorarmos e libertarmos isto e para tal precisamos de apoio. O verdadeiro deixar ir requer um luto que irá criar espaço para novas formas de estarmos no mundo que realmente nos nutrem e nos preenchem.

3) Identificar novas e positivas crenças ou padrões para substituir as velhas e negativas. E depois haver o compromisso de agirmos em função dessas novas crenças.

Exemplos:
– É seguro sair do medo e acreditar em mim mesmo/a (Acção: sermos doces com os nossos medos à medida que arriscamos em algo novo ou começamos um projecto onde iremos estar visíveis para os outros)
– Dou autorização a mim mesmo/a para honrar as minhas necessidades e falar a minha verdade (Acção: falar em nome próprio e numa situação em que as tuas fronteiras não estão a ser respeitadas)
– Eu honro a minha verdade mesmo que aqueles que me rodeiam não aprovem (Acção: fazer algo que é apropriado para nós mesmo que os outros rejeitem)

Esta acção dá-nos uma nova experiência que transmite ao nosso subconsciente mensagens poderosas de que É seguro agir contra aquilo que aprendemos enquanto crianças. Noutras palavras, não agir de acordo com os padrões não irá causar rejeição, humilhação ou abandono tal como acontecia na infância. De certa forma, é através de trazermos a nossa criança interior até ao presente, onde ela PODE experimentar ser apoioada por aquilo que ela É, porque tu, como adulto, estás ali ao lado dela na maneira como a tua mãe não conseguiu. Isto cria uma maior integração dentro de nós mesmo e mais desapego e distância dos padrões que nos prejudicam que adoptámos na infância. A chave aqui é a consistência. De forma consistente, pequenos passos levam a grandes transformações ao longo do tempo.

É importante percebermos como estas antigas estratégias não funcionavam.

Exemplos:
– Sermos sossegados não fazia com os que outros nos aprovassem
– Resolver os problemas da família não criava paz duradoura ou protegia da rejeição
– Sermos o animal de estimação da mãe e concordarmos sempre com ela não fazia com que ela nos visse realmente
– Absorver as crenças de medo da mãe não nos fizeram sentir seguros
– Ficarmos pequenos e em silêncio não fizeram com que a nossa mãe nos aprovasse ou validasse
– Focarmos-nos na mãe e nos seus problemas não fizeram com que ela nos escutasse ou apoiasse

Quando percebemos como estas estratégias não funcionaram, podemos então deixar ir da influência inconsciente que elas têm em nós. Normalmente, há um período de luto a fazer. Deixar ir estes padrões é, de certa forma, deixarmos ir a ilusão da mãe que achámos que ela podia ser.

Quando entendemos que a “mãe boazinha não existe” damos a nós mesmos a permissão de escolher novas formas de ser e agir num mundo que nos pode trazer alegria e preenchimento. As nossas vidas começam automaticamente a mudar em torno desta tomada de consciência. A rejeição destes padrões negativos NÃO É um rejeição pessoal da nossa mãe. Seguir para lá destes padrões de infância não significa que estamos a escolher curar e criar novas relações em substituição de outras. A nossa mãe poderá ver a mudança como uma forma de traição na medida em que ela própria também se poderá identificar com estes padrões. A sua resposta ao nosso afastamento destes padrões é a forma de como ela própria está em contacto com estes padrões; nada tem a ver connosco. Podemos entendemos o quão fúteis e doentios estes padrões são na nossa vida, mas a nossa mãe pode não ver assim. As suas opiniões não vão ditar a nossa realidade. É deixá-la ter a sua própria experiência sem pressionarmos ou explicarmos ou querermos tomar conta dela; esta é uma forma de respeito por ela e por nós próprios.

Ao longo de gerações, mães feridas têm pedido de forma inconsciente às suas filhas para as compensar por aquilo que a sociedade patriarcal e as suas famílias não lhe deram: um sentido de propósito, controlo ou validação pessoal. As filhas não podem provir por isto. Não mesmo ser dado, pode apenas ser encontrado dentro da própria mãe ao se comprometer com a sua própria cura e transformação. Quebrar este ciclo tóxico é recusar a sintonia com esta mensagem velada de uma mãe ferida: “Não me abanones tornando-te suficiente por ti mesma”. Mulher, tens o direito à tua própria vida. Deixar a tua mãe ter a sua experiência e processo de cura não é cruel (tal como o patriarcado nos disse). Isso é saudável e necessário.

O teu total empoderamento é impossível num ambiente de promiscuidade disfuncional com a tua mãe.

Recusar carregarmos a dor da nossa mãe é uma forma de quebrarmos o ciclo entre mãe/filha.

Uma separação emocional saudável é o que é necessário para trazermos um novo paradigma de harmonia e confiança entre mães e filhas. Como filha, não estás a causar dor à tua mãe por te recusares a carregar o seu fardo, mas sim estás a parar de te sacrificares para perpetuar as suas ilusões, e ao procederes assim, estás a corrigir um desequilíbrio que foram alimentado na tua linhagem feminina durante gerações. A dor que ela sente, é a sua e esteve escondida até agora. A recusa de tomares conta da tua mãe emocionalmente vai-lhe oferecer a oportunidade de ela assumir responsabilidade por si mesma. A sua personalidade pode não gostar, mas na realidade estás a servi-la num nível bem mais profundo. O teu compromisso pelo teu próprio empoderamento serve na realidade a tua mãe, dado que a abre para o seu próprio poder, se assim ela escolher. As mães que ainda se identificam com as crenças patriarcais não vão conseguir ver esta oferenda. O mais importante é que TU o saibas.

Uma grande mudança acontece quando a tua integridade se torna mais importante que a opinião da tua mãe sobre ti.

Questões para reflexão:

1 – Identifica um padrão negativo que tenhas adoptado na infância como uma mecanismo de cópia e que ainda está activo?
2 – Qual foi a situação original que causou a adopção desse padrão negativo ou crença em ti mesma?
3 – Que processo emocional precisa acontecer para que deixes ir esses padrões? O que precisa ser enfrentado? O que precisa ser reconhecido e chorado?
Que tipo de apoio precisas para este processo? E de que forma te podes ir nutrindo nesta cura?
Autora Bethany Webster
Texto retirado daqui – http://www.womboflight.com/ e com tradução livre de Isabel Maria Angélica, a 7 de de Dezembro de 2016. Imagem “Grace” por Joyce Huntington.

Este texto pode e dever ser partilhado mantendo as referências às fontes do mesmo na versão original e na tradução. Gratidão.

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2 thoughts on “Quando a Lealdade às nossas Mães significa Lealdade à nossa opressão: como nos libertarmos por Bethany Webster

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