Archive | Março 2016

Arte de cura

A mais antiga arte de cura está baseada nas habilidades e forças que a mulher retira da menstruação. 

– Monika von Koss em Rubra Força 

  

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Os opostos/complementos

Quando os aspectos complementares se tornaram oponentes irreconciliáveis na consciência humana, o mundo e seus fenómenos passaram a ser definidos como bons e maus, claros ou escuros, sagrados ou demoníacos. 

~ Monika von Koss em Rubra Força  
 

A VIAGEM À CAVERNA UTERINA por Ximena Avila

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Nas profundezas de cada mulher há uma caverna que guarda os segredos das suas memórias uterinas. Nas suas paredes de rocha, existem hieróglifos que relatam tudo o que ela precisa saber sobre si mesma. Um saber tão profundo e extenso como as estrelas do céu, pelo que ela irá necessitar de muitas vidas para revelar uma parte importante dela. Cada mulher é um cântaro de histórias que guarda a verdade sobre a humanidade e a origem do Universo. Mas o que cada mulher não sabe é que a sua caverna uterina conecta-se com as cavernas das suas ancestrais e também com os das demais mulheres. Partilhamos a memória da humanidade nos nossos úteros. Existem marcos que ocorreram ao longo do tempo e que estão plasmados no ventre de cada mulher, assim quando cada uma se cura, cura a outra e a humanidade.

A minha viagem pessoal à caverna uterina foi dolorosa e maravilhosa também, merecendo uma transcendência única na minha vida, que é o que desejo com profundo amor partilhar convosco.

A primeira vez que entrei numa Cerimónia de Temazcal não fiz mais do que chorar. Não conseguia reconhecer de onde vinha tanta tristeza e era o mesmo que acontecia durante as minhas menstruações, pois durante esta viagem existia em mim uma dor inexplicável que o meu corpo e mente não conseguiam alcançar compreensão nem processar.

Mais tarde compreendi que ir a uma tenda de suor, assim como a menstruação, simbolizam o regresso ao útero da Mãe e ali curas aquilo que precisas no momento da tua vida. Esta entrada ao útero dá-nos a consciência de tudo o que estava sem vida dentro dele e ali estão os cemitérios ancestrais habitados por sonhos frustrados, os desamores, os não nascidos, os exilados da família, os esquecidos e os não honrados.

O mesmo acontece durante cada menstruação – cada uma de nós empreende uma viagem solitária à sua própria caverna uterina, essa que leva escritas as nossas histórias de alma e também esse poder criador e a energia sexual das nossas ancestras. Essa força que se foi acumulando à medida que cada mulher do fio vermelho foi parindo e foi capaz de transmitir a vida de geração em geração de forma incansável e ininterrupta até permitir que nós possamos estar aqui e agora. Contudo, nesta viagem deve-se honrar todas as mulheres da nossa árvore, sem esquecer nenhuma delas, tenha sido mãe ou não, tenha sido feliz ou triste, tenha sido boa ou má. Apenas com o facto de recordar uma ancestra e honrar tanto a sua existência como a sua morte, há carga que se soltam e caminhos que se abrem na nossa vida.

Desde o princípio dos tempos, mulheres e homens compreenderam que a menstruação da mulher a conduzia a um estado de transe que apenas elas eram capazes de experimentar. Assim, o seu regresso à caverna uterina ocorria cada mês, lua a lua, e nessa viagem rezavam por toda a humanidade. Foi assim que as xamãs começaram a alcançar este estado de transe com a viagem de tambor e plantas de poder. Com o transe, ingressavam a caverna uterina das suas linhagens, alcançando o mesmo poder sanador que obtinham as mulheres durante o sangramento.

Por outro lado, o tratamento com o Ovo de Obsidiana foi um veículo até à caverna uterina, sendo um toque final na minha viagem pessoal. Através dos sonhos e meditações foram-se revelados segredos transcendentais da minha árvore, o que me permitiu encontrar as raízes da imensa tristeza que habitava o meu espaço uterino. Contudo, aí compreendi que uma parte da cura é encontrar uma resposta e logo surge a tomada de consciência de mudar crenças e hábitos de vida que é o mais difícil. Quando encontras as raízes de uma doença apenas estás a metade do caminho.

A obsidiana também me permitiu reconhecer-me numa linguagem simbólica profunda. Aprende que cada vez que sonhava com água, representava na minha psique o estado emocional da minha caverna uterina, manifestado pelo estado energético do meu segundo chakra. Aprendi assim que as águas turvas eram sinal que a minha menstruação iria chegar intensa, com dores ou com coágulos. Por outro lado, as águas cristalinas e lívidas em que muitas vezes me via a flutuar, indicavam uma menstruação que iria chegar suave e amorosa. A água é um espelho por excelência e, apareça no interior ou no exterior, sempre nos mostra a nossa alma.

Convido-te que durante cada menstruação observes com profunda atenção quais são os sentimentos que mais te invadem. Fecha os teus olhos e abre-te a conhecer as histórias da linhagem que existem atrás de cada sensação. Recorda que cada momento de sangramento é uma viagem profunda à caverna e isto te permitirá compreender com amor e paz a tua dor física e emocional.

Recorda-te que não estás só, não és a única. És um cântaro de histórias universais, escreve essas histórias e comparte-as com o mundo.

Espero que de alguma forma, a tua viagem à caverna uterina apenas te traga cura.

Abraço-te.

Ximena

Se vais copiar este artigo, peço-te para citares a fonte http://www.cantarosagrado.cl
Texto original – http://www.cantarosagrado.cl/2016/03/23/el-viaje-a-la-caverna-uterina/
Traduzido por Isabel Maria Angélica | No Ninho da Serpente | Círculos de Mulheres, Março de 2016

O teu sangue menstrual não é lixo! Celebra-o! por Isabel Maria Angélica

Os Círculos de Mulheres são organismos vivos que se nutrem e alimentam uns nos outros. Um fluxo alimentado por séculos e milénios de história, onde invariavelmente as mulheres mais velhas vão passando, à sua maneira, o conhecimento e saber para as que se seguem na linhagem geracional.

Cada vez mais, à medida que as semanas passam, as mulheres que sentam em Círculo sentem este pulsar como um facto que não é possível mais ignorar. Somos células vivas, pulsantes de energia e de sangue e cada vez que ocupamos os nossos lugares nos Círculos de Mulheres estamos a revisitar uma herança ancestral que nos pertence por direito próprio apenas porque escolhemos nascer mulheres.

A minha energia e o meu sangue toca na energia e no sangue das outras Mulheres e todas começamos a vibrar a partir da mesma fonte, mais que não seja, mesmo que não acreditemos em mais nada, é a fonte que nos traz a vida, e que nos faz com que exista sangue a pulsar nos nossos corpos. Há, no entanto, algo mais que nos une – temos ovários e útero. Mesmo que não seja fisicamente, todas as mulheres trazem no seu corpo energético essa informação. E os mistérios dos úteros é este movimento circular que não tem principio nem fim.

A partir da manifestação do útero, segue-se em algum momento da maioria das mulheres, a menstruação. Esse fio vermelho que desce pelas nossas pernas buscando avidamente regressar a Fonte de onde veio. Contudo, para a maioria das meninas que experimentam a sua primeira menstruação (a Menarca) o que ficou gravado nas suas células foi que a menstruação era uma coisa horrível, feia, um castigo… Um dia podemos fazer umas coisas no outro já não.

Desligamos-nos do nosso sangue sem nunca nos termos ligado, o útero e o fluxo menstrual passam a ser temas a ignorar e ainda chegam as vacinas que inibem o fluxo menstrual para ajudar ainda mais à distanciação da mulher quanto aos seus rimos naturais e arcaicos. Contudo, chegamos agora ao momento que falar de sangue menstrual, útero, lua e ciclos é conversa que ouvimos com mais regularidade. As mulheres adormecidas despertam e com elas despertam os poderes escondidos de uma ligação saudável à Fonte de vida e abundância. O que é isto de conectarmos com este órgão reprodutor complexo? Acima de tudo, é navegar em círculos e nos ciclos da nossa espiral da vida e morte.

Para nós, mulheres, o acto circular é inato. A nossa vida é um círculo e um ciclo, as nossas menstruações são um ciclo que criam um círculo que acompanha a Lua no céu. E para isso precisamos, primeiro que tudo, aprender a tirar tempo para menstruarmos em paz e sossego… e podemos começar apenas com UMA HORA em cada ciclo de um mês…

Escolhermos ter tempo para estarmos a menstruar traz mais relaxamento muscular, maior abertura no ponto energético uterino, vaginal, mental e emocional, começamos a estar mais atentas aos sinais do nosso corpo, do que o corpo nos pede e não ficamos tão cansadas. É, acima de tudo, um compromisso de amor próprio! Se nós não fizermos o trabalho de nos respeitarmos a nós, no nosso espaço, ninguém vai fazer esse trabalho por nós e, às vezes, nós caímos na arrogância de que somos imprescindíveis e que a vida lá em casa não acontece, então fazemos o sacrifício de estarmos sempre aptas por mais que isso nos custe.

Respeitar o Círculo interno, respeitar os ciclos, é arrojador, mexe com a rotina em casa, no trabalho e nas dinâmicas pessoais à nossa volta. Mas, acima de tudo, vai mexer com o conceito que somos imprescindíveis e isto é um desapego brutal. Depois percebemos que quando queremos ser imprescindíveis somos, na realidade, insuportáveis dado que estamos a ir contra à natureza e pedido profundo do corpo que pede atenção no acto da libertação para a Fonte do nosso sangue.

A vida acontece se não estivermos um dia inteiro a participar activamente nesta rotina. E este é um facto que nos ensina uma tremenda lição de desapego. E quando nós nos permitimos a esse desapego, as coisas acontecem e nós podemos estar só umas horas connosco mesmas.

O trabalho do respeito do ciclo interno é das coisas mais bonitas que uma mulher consegue fazer por si mesma, é das coisas mais bonitas que as mães podem ensinar às filhas, as tias às sobrinhas, mulheres à outras mulheres. Podemos e devemos descansar, ficar na cama, escolher um local para entregarmos o sangue… podemos criar, pintar, desenhar ou escrever! Podemos cantar, dançar ou apenas meditar… O que fazemos nesses minutos ou horas de descanso e recolhimento é uma forma de darmos atenção ao nosso fluxo de fertilidade, criação, abundância e sustento. E só este acto de observação e de despojo com a Fonte da vida, estamos a nutrir e a alimentar as raízes de uma árvore que nos simboliza a nós.

A menstruação significa que o nosso útero, os nossos ovários, estão a produzir ovos/óvulos e significa que mais tarde quando quiserem ter filhos, aqueles óvulos podem vir a gerar vida, e quando o óvulo não gera vida ele é expulso pelo canal uterino vaginal que depois mais tarde ao fim de 28 dias se transforma em sangue. E esse sangue não é nojento, nem é para deitar no lixo, aquele sangue é resultado de um óvulo que prossegue noutro ritmo, com outra função e aquele sangue tem tanta vida como tinha no momento em que estava pronto para ser fertilizado.

Então o sangue menstrual tem vida, tem células estaminais e estas células geram vida. O sangue que sai pela nossa vagina é vida, não é lixo. Não é para ser desperdiçado num penso ou num tampão que se jogam no lixo! É VIDA!

A mulher já tem o sexto sentido por natureza, já nasce com uma conexão a tudo o que a rodeia, intuitivamente nós sabemos coisas. Quando a mulher está menstruada não há contenção – o sangue desce!, e se imaginarmos a liberdade de podermos deixar que o sangue vá pelas nossas pernas, aquela água vermelha acaba por cair na terra e é absorvido pela e vai para algum sitio, não se desperdiça. Sendo a mulher naturalmente lunar está conectada ao todo quando ela está menstruada – ela está mesmo conectada entre o céu e a terra, os sonhos mais fortes, as emoções mais intensas, tudo se torna mais visceral… Os sonhos que sonhamos quando estamos menstruadas são sinais, são iniciáticos. A mulher menstruada fica completamente conectada e torna-se um oráculo.

Contudo, quanto mais conhecemos esta nossa energia interna mais conseguimos aplicar no nosso dia-a-dia para coisas que nos fazem crescer interiormente e nos trazem abundância a todos os níveis. Há algo que é tão sagrado e que vive dentro de nós e que é nosso.

Há um consciente colectivo que é unido através do sangue, podemos imaginar o sangue como esta rede toda, esta seiva e a terra tem esta seiva em raízes que se tocam e que se expandem pelo Planeta inteiro e que toca em cada uma das mulheres que vive, que se manifesta e que caminha na Terra.

No acto de menstruarmos, seja fisicamente ou de forma simbólica (no caso das mulheres que já não têm essa possibilidade), há um amor profundo por nós mesmas e pela Grande Mãe que vive os seus ciclos tão bem representados em cada uma de nós. No sangue e na partilha comum e consciente desse acto sublime não há ego, não há competição, não há comparações, porque somos todas iguais, somos todas mulheres, a fazer exactamente a mesma coisa – apenas a oferendar o nosso sangue à Mãe e a acolhermos os frutos de estarmos todas interligadas e a gerar um órgão que é vivo e que se alimenta através das águas vermelhas de todas nós. Isto é magia!

Nós, mulheres, estamos esquecidas desta nossa conexão e é por isto que as mulheres têm cada vez mais doenças no útero, grandes depressões, porque as mulheres vivem desconectadas da matéria, da Mãe, do conceito feminino da vida.

O útero é o símbolo da árvore dentro de cada uma de nós.

Como é que podemos nós alimentar a nossa árvore interna? Entreguemos o nosso sangue menstrual à Grande Mãe. Podem um vaso em casa e façam esta oferenda, enfeitem o vaso e transformem-no num altar. E depois podem entregar essa terra num lugar escolhido por vocês no mar ou num local energeticamente protegido. Ou então, se têm um espaço verde fora da vossa casa, um jardim, uma horta, o que for, escolham um lugar onde fazer este espaço para vocês. Façam um buraco no chão, podem colocar umas folhas de cedro, queimar folhas de sálvia e todos os meses, todo o sangue que guardarem, vão entregando no mesmo sítio. Tapem este buraco com uma pedra grande e criem um altar.

Quando se estabelece uma conexão a um lugar assim, estamos a alimentar o cordão umbilical que se alimenta daquela placenta que nos liga ao Útero da Grande Mãe.

Recolham TODO o vosso sangue menstrual. Não podemos deitar para o lixo ou para a sanita! É vida! É a nossa fertilidade, força e abundância! Podemos colocar os pensos ou os tampões em água, de molho, e aproveitamos essa água com o nosso sangue, a nossa abundância, e entregamos no local sagrado. Mexer nas águas vermelhas, colocá-las numa garrafa de vidro, bem bonita, consagrar os momentos, os fluxos e os ciclos é uma forma de maior contacto interno e, ao mesmo tempo, de desconstrução dos paradigmas anteriores que a educação e a sociedade no impingem de quem o sangue menstrual é lixo, é nojento e só causa transtorno… Nada disso! Pode e deve ser encarado como uma tintura através da qual pintamos as telas brancas de infinitas possibilidades da nossa vida.

Deitar os pensos para o lixo é tratar a nossa abundância como lixo!

As mulheres que já não são menstruadas podem todos os meses escolher um dia no mês para fazer o ritual de entrega à Mãe. Arranjando para tal sumo de frutos vermelhos ou vinho tinto, sempre simbólico do vermelho da vida. Honrando assim o sangue menstrual que já tiveram, a menstruação que já tiveram e honrando os vossos ciclos e as vossas luas. As mulheres na menopausa ou que por algum motivo tenham feito a remoção do útero continuam a ser cíclicas, a estarem afectadas pela Lua e continuam a estar ligadas a este rede eterna de raízes vermelhas.

Honrar as nossas águas vermelhas é abrir um caminho constante de equilíbrio interno que vai enchendo o nosso cálice interno de forma a substituir este vazio e saudade que sentimos com tanta frequência.

Honrar as nossas águas vermelhas é abrir e expandir consciência para um trabalho intenso mas cheio de frutos e bênçãos gerados e nutridos a partir da nossa intimidade com a Deusa, a Grande Mãe.

Há muitas luas que pratico este ritual, honrando as minhas águas que oferendo à Grande Mãe. Tem sido uma experiência que me tem permitido alcançar muita cura, consciência e transformação internas. Através destas e de outras experiências, entendo cada vez melhor a emoção de ser uma mulher intuitiva mas de presença terrena. Os poderes internos ampliam-se, mas com isso também vem uma responsabilidade maior na sendo do amor próprio e poder pessoal. Contudo, já não consigo conceber a possibilidade de me desfazer do meu sangue de forma leviana e, confesso, já fico chocada quando encontros pensos higiénicos de alguma mulher num lixo qualquer.

Celebrar o nosso sangue da vida, as nossas águas vermelhas, é celebrar a nossa sabedoria e fogos internos que a Grande Mãe tão bem representa através dos seus animais manifestados – a serpente e o dragão.

Mais e mais tenho como foco espalhar esta mensagem para que as meninas, mulheres e anciãs cuidem dos seus sangues e assim abram caminho à expansão interna para um crescimento a todos os níveis. E é algo que eu experimento e sei bem o que me tem trazido. Não me canso de reforçar este ponto, pois o caminho de saber feito é a única lição que nós mulheres conseguimos validar.

Estes círculos são eternos e movimentam-se de forma cada vez mais intensa. As energias estão a acelerar e a Grande Mãe pede-nos consciência e responsabilidade ao lidarmos com a fonte da vida em cada uma de nós e em todas as mulheres. Ensinar tudo isto umas às outras e aos nossos homens será a forma de fazer florescer o amor, a paz e o respeito no Planeta Terra. Disso não tenho dúvida alguma.

A ilustrar este texto, senti que deveria trazer um desenho nascido da experiência pessoal de uma irmã que o desenhou após a sua primeira devolução do seu sangue menstrual à Mãe. A emoção e a experiência vivida e vívida são bem representadas neste desenho celular. Grata Sónia Moutinho pelo teu coração de mulher ao serviço de ti mesma e de todas nós.

Espalhem a palavra. Aprendam a celebrar as vossas águas vermelhas. Criem novos paradigmas a partir da vossa experiência pessoal e depois sentaremos todas em Círculo a partilhar os milagres das nossas vidas! 🙂

Aho Grande Espírito!
Metakiaze!

~ Isabel Maria Angélica, 17 de Março de 2016

(Este texto pode e deve ser partilhado ou traduzido desde que honres sempre a fonte @Isabel Maria Angélica | No Ninho da Serpente – Círculos de Mulheres de Terras de Lyz)

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Sou uma mulher de Círculo. É a minha casa. O meu reduto. 

Em Círculo estou no ninho onde a Serpente me inspira na conexão a mim mesma e a todas as mulheres que honram os fios e as teias vermelhas ancestrais que nos unem. 

Sou testemunha e vivência dos milagres. Não há como contornar. E sou grata por isso. Mesmo muito grata. 

  

Sobre os Círculos de Mulheres

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Se tu não passas à prática a cura que recebes nos Círculos de Mulheres em que participas, então tudo pára na tua vida, porque a consciência é a primeira transformação e aí vem a responsabilidade da mudança. Se com a consciência tu não fazes nada e ficas à espera que a vida aconteça, entras neste processo de inércia e letargia.

Nos Círculos de Mulheres trabalhamos todas as questões inerentes à nossa história de meninas, mulheres e anciãs. Contudo, normalmente, as mulheres apresentam-se na postura das meninas que tomam tudo pessoalmente, que levam a peito cada re-descoberta e não integram a consciência de Círculo em si mesmas e na Espiral da Grande Mãe. Apresentam-se como estando à espera que alguém venha fazer algo por elas (os salvadores) ou esperam que algo aconteça para justificar o boicote ao processo de forma a saírem zangadas com o Círculo.

Se nós estamos a fazer o caminho para nós próprias porque é que vamos ser salvas de nós mesmas? E porque é que não devemos assumir que o Círculo não é um caminho de salvação mas sim de integração, com tudo o que isso implica?

 

Cada uma de nós tem a ferramenta que se adequa à nossa história pessoal, e não foi algo que nos tenha sido passado ou que herdámos, mas sim é o resultado de uma busca interna. Mas essa busca interna é que faz a integração. 

por Isabel Maria Angélica (Tenda Vermelha de 17.Fev.2016, Vairão, Portugal)

A Lenda do Fio Vermelho por Ximena Noemí Ávila Hernández

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Esta história começa assim …

Chegou o dia em que a menina se tornou mulher, o sangue das suas veias começou a banhar o seu ventre.

A mãe abençoa-a traçando no seu rosto um símbolo de celebração, ao mesmo tempo entrega-lhe uma panela de barro que no interior continha um novelo de fio vermelho. Este tinha sido feito e tingido por ela mesma com o seu sangue menstrual depois de recuperar os seus ciclos após dar à luz à menina.

Nesse dia especial, a mãe pediu à filha a promessa de desenrolar o novelo até o fim dos tempos, onde, de geração em geração, cada mãe iria ensinar a cada filha este legado, transmitindo assim o valor e responsabilidade com toda a linhagem anterior e posterior: “tudo o que tu vivas será gravado no fio vermelho e, portanto, será compartilhado com a árvore inteira, tudo que tu sofras sofrerá a árvore, tudo que tu sanes sanará a árvore.”

Então, a menina segurou com força a panela de barro entre as suas mãos, levou perto do seu coração e olhou para a mãe com olhos de amor e gratidão infinita, porque ela compreendeu que, além da vida ou da morte, o novelo de linha vermelha sempre ia mantê-la unida a todos os integrantes da sua árvore, especialmente aos úteros da sua mãe, sua avó e da sua filha.

No momento em que a menina aceitou com amor o novelo, a mulher sentiu que uma parte muito importante do seu trabalho como mãe estava completa. Ela sentiu uma grande alegria no seu coração, assim respirou e agradeceu ao Grande Espírito.

Há uma teia de aranha que une a todas as mulheres do mundo, dela nascem um milhão de fios vermelhos que unem de forma linear cada mulher com o seu anterior e posterior linhagem.

Este fio passa pelos úteros de mulheres e é tingido do vermelho rubi do sangue menstrual que embebe os seus úteros por dentro, assim, também saem fios dourados que mantêm os homens conectados à rede através dos úteros das mulheres.

Se juntamos todos os fios vermelhos do mundo veríamos uma Grande Teia de Aranha vermelha que representa a humanidade. Este fio leva e traz informação, jamais se parte, só cria nós como resultado da dor e dos conflitos e para ir sanando é necessário ir desfazendo nós.

Quando uma integrante renuncia as suas ancestrais, ou se sente excluída da sua linha vermelha, forma-se um nó de modo que o fio vermelho deixa de a nutrir, ela pode ficar doente ou sentir-se deprimida, sentindo-se  incompleta.

Quando uma mulher honra o seu fio vermelho, recebe e envia todas as bênçãos da árvore, e  essas fluem daqui para lá.

Segurar o fio vermelho com força é como dizer a si mesma: “Esta é a minha linhagem e daqui eu venho, eu recebo todo de minha árvore, o bom e o difícil, e eu aceito-o com amor.”

À medida que cada integrante da árvore vai sanando (homens e mulheres), o fio vermelho evolui na sua cor e adquire um brilho resplandecente que se irradia sobre o resto da rede.

Agora compreendes porque somos um?

Se te curas, curas a tua árvore, se curas a tua árvore, a consciência da humanidade eleva-se, por isso é de vital importância recuperar a consciência do fio vermelho que nos une a todas e a todos.

É muito importante, que de mãe para filha, se recupere a tradição ritual que celebra a menina quando torna mulher. Assim, cada menina poderá receber uma tradição que vai manter-se viva de útero para útero, e vai-se tornar ciente de que a sua menstruação simboliza a união com a linhagem matrilinear e assim também a possibilidade de trazer para a terra uma vida nova.

Esta tradição consiste em comemorar o momento em que a menina se torna parte deste fio vermelho e esse momento é quando a sua menstruação chega. Celebrar a menstruação é  celebrar a união matrilinear.

Quando vires nas tuas cuecas a primeira mancha de sangre significa que chegou o momento de receber o novelo de fio vermelho, chega o momento de cuidar dele como um tesouro precioso e de conservar-lo para que algum dia entregues as tuas filhas.

A madeixa do fio vermelho é uma metáfora que simboliza a união sanguínea que existe na nossa linhagem matrilinear. Manter viva esta união é celebrar os ciclos da vida, falarmos e reunirmos e transmitirmos informação valiosa sobre a mulher de mãe para filha, avó para neta, de tia para sobrinha.

… 

O fio vermelho do ciclo menstrual une-nos a todas as mulheres: nossas mães, avós, bisavós e todas as mulheres da nossa linhagem ancestral, até ao passado mais remoto das brumas do tempo.

Tu e as tuas antepassadas maternas sangraram cada mês para poder dar vida. Reconhece que sei a menstruação nenhuma podia ter dado à luz. És um elo de uma cadeia de gerações que começou antes do tempo e continuará até muito depois de teres partido.

Todas as mulheres estão unidas através da conexão profunda e visceral dos tempos de lua.

Por De Anna L’Am

 

Esta história foi inspirada na minha viagem a Bolívia, nos dias que estava prestes a menstruar. Quando olhava para o deserto, veio a minha cabeça uma série de imagens: tribos, danças, celebrações e ritos de mãe e filha. Foi muito bonito sentir que o rito da menarca descrito na história vivi eu mesma com minha actual mãe há centenas e centenas de anos atrás, em algumas das vidas que tive junto a ela.

Eu partilho estas palavras hoje porque eu sinto que elas podem inspirar muitas mulheres nesta jornada de cura que nunca termina. O meu desejo é sempre que com a recuperação das histórias desperte uma consciência adormecida da vida como um instante sagrado.

Desta história também nasceram as “Danças do fio vermelho”, danças tribais que estou a começar a compartilhar com as mulheres que frequentam as reuniões. Estas danças procuram despertar a consciência de irmandade e sororidade que nos leva a aquela alma tribal e comunitária que pertencemos desde o início dos tempos.

Eu espero que em algum momento dancemos juntas com o  fio vermelho.

Abraço-vos com amor

Ximena Noemí Ávila Hernández

 

Esta história nasceu das profundezas de minhas memórias uterinas, por isso, se copias no teu blog  refere a página desde onde obtiveste. Obrigada!

http://www.cantarosagrado.cl

Versão original – https://escuelacantarosagrado.wordpress.com/2016/02/14/la-leyenda-del-hilo-rojo/

Tradução por Caroluna Stargate​ e Isabel Maria Angélica​