Archive | Maio 2015

Missão do Ninho da Serpente 

  

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Houve um tempo

“Houve um tempo em que não eras uma escrava, lembra-te disso. Caminhavas sozinha, alegre, e banhavas-te com o ventre nu. Dizes que perdeste toda e qualquer lembrança disso, recorda-te… Dizes que não há palavras para descrevê-lo, dizes que isso não existe. Mas lembra-te. Faz um esforço e recorda-te. Ou, se não o conseguires, inventa”.

– in ‘Les Guérillères’ de Monique Witting
  

O caminho da serpente… um caminho para dentro…

Já Fernando Pessoa escrevia sobre o caminho da Serpente. Antes disso, a Serpente era cultuada nos altares dos templos. Ainda muito antes disso, este território de Portugal era conhecido como a Terra de Ophiusa.

Falar da Serpente é ir à conexão elementar de todas as culturas xamânicas ancestrais da Terra. É conectarmos-nos com uma força representativa da Grande Mãe que é veiculada por uma linguagem não-verbal e com mais de 20 mil anos… Conseguem imaginar os primeiros homens e as primeiras mulheres a comunicar com a sabedoria da Serpente sem uma única palavra?

E este é que é o desafio – sentir e manifestar a sabedoria da Serpente, com os seus ciclos e manifestações circulares sem palavras, sem formatações, sem rótulos. Sem linguagens contaminadas por 5 mil anos de patriarcado, onde nem sequer a cristandade tinha nome.

A Serpente apareceu no meu caminho em Dezembro de 2010 quando as medicinas amazónicas me apresentaram ao princípio criador de todas as coisas. Veio a Anaconda, a Gibóia, a Naja… todas elas! Vieram receber-me e pôr-me à prova… Vomitei, mudei de pele (continuo a mudar vezes sem conta), questionando a minha mente e o ego, despindo-me das ilusões das memórias celulares e a conectarem-me com o mais profundo em mim – a minha humanidade.

Com as visitas constantes da Serpente no meu corpo de mulher, vi desmontadas TODAS as certezas absolutas e TODAS as verdades que sentia como fiéis… E fui fundo… vou fundo cada vez que abro um Círculo de Mulheres No Ninho da Serpente. Vou fundo desde que de forma pensada e estruturada abri o primeiro Círculo a 25 de Maio de 2013. Ao ponto de sermos uma só.

E é isso que me move – a conexão à minha humanidade, aliada à capacidade voraz que a Serpente tem de mergulhar vezes e vezes sem conta às profundezas de si mesma. E assim mergulho em mim, realizando as vezes que forem necessárias que nada sei perante os mistérios da Vida e da Morte que a Grande Mãe tão sabiamente manifesta através da Serpente. Os mistérios do Útero e do Sangue…

O que representa a Serpente não está acessível ao comum dos mortais, pois é necessário um Caminho Iniciático honesto e responsável que implica a desconstrução total da linguagem do patriarcado dentro de nós. É preciso apagar conceitos de família, amigos, hierarquias, mestres, parcerias, companheiros/as, filhos/as… TUDO é questionado no Caminho Iniciático da Serpente ou de qualquer outra energia manifestada pela Grande Mãe. A leviandade é punida, não por Deus ou a Deusa, mas sim pelas nossas próprias almas que não se compadecem com mais mistérios usurpados.

A mente mente. E até mente ao coração. É bom nunca nos esquecermos disso à medida que mudamos de peles. E estas peles doem ao sair. A nova pele dói até ficar regenerada. Daí todo o processo ser iniciático. A Serpente não se comunica por canal ou vidência. Ela entra nas células das iniciadas aptas a escutar com humildade os segredos da Criação. Sendo que Antes do Verbo era o Útero, como escreve a portuguesa Rosa Leonor Pedro. E já aqui há muita, mas muita pele a mudar até à compreensão real do que esta frase significa.

A Serpente é sagrada, tal como a Grande Mãe e todas as criaturas que nela habitam. E esta sacralidade não se coaduna mais com fanatismos, loucuras egóicas e sendas de salvadores. Esta sacralidade habita Pachamama há mais de 40 mil anos. E convém posicionar no tempo que o catolicismo foi iniciado há pouco mais de 2 mil anos. Contudo, o seu linguajar de tementes, com castigadores e castigados, ainda está presente nas nossas informações celulares e carregamos a herança da Serpente que foi punida do Éden… E essas podem ser limpas pela Serpente, mas será de esperar a morte dos conceitos, pré-conceitos e outro tipo de informações doentias que os nossos 70 triliões de células activas aqui e agora guardam. A Serpente chegará para cravar em nós as suas presas, morder e despejar o seu veneno… e ele mata ou cura. A escolha é nossa, conscientes da responsabilidade que a nossa Alma nos pede nestes tempos em que a lição da verticalidade é premente.

É arrogância do ser humano em achar-se acima das leis da Grande Mãe e considerar-se porta-voz Dela ou de alguma das duas Forças… pois não somos nós que a escolhemos. É Ela que elege os verdadeiros caminhantes que entram na sua floresta, tomam das suas medicinas (sejam elas quais forem) e curam o corpo, a mente, o coração e o espírito… Pois o caminho de ascensão é para dentro. Sempre para dentro… No escuro, no Seu útero, no vazio do nada e onde a mente inferior perde poder.

Mais há a escrever sobre o tema. A Serpente guiará. E humildemente continuo a apresentar-me ao serviço da minha guia interna, onde a Serpente e o Leão são os meus animais de poder. Honro-os, tal como honro o meu animal protector, o Dragão. Estas forças telúricas ajudam-me a trabalhar o Eu e assim conectar-me o Eu Superior. A ascensão é mesmo para dentro. Para dentro da nossa humanidade, com tudo o que isso implica.

Mudo de pele novamente. Aguardo o restabelecimento final.

– Isabel Maria/IsisBella/ Angélica, 29 de Maio de 2015

o caminho faz-se serpenteando

– Mensagem Urgente da Mãe – Jean Shinoda Bolen

“Quando a agenda do mundo é determinada por homens, isso significa que decisões importantes que afectam o planeta, os seres que nele vivem, e toda a vida na Terra são tomadas pelo género que o mais provável é não saber nem querer saber do que as outras pessoas estão a sentir, a viver e a sofrer. Enquanto as mulheres não estiverem realmente envolvidas naquilo que está a acontecer no mundo, informações essenciais e preocupações cruciais não estão a ser tomadas em consideração.”

I Dreamed I Was A Raven - Raven Dreams by Cathy McClelland

– Terra fértil e sangue menstrual –

ANTIGOS REGISTOS INDÍGENAS DÃO CONTA DE RITUAIS FEITOS PELAS MULHERES DURANTE O TEMPO DA LUA, OU SEJA, A MENSTRUAÇÃO. ELAS ACREDITAVAM QUE O SANGUE MENSTRUAL TRAZIA VISÕES, SONHOS ESPECIAIS E PODER DE CURA. DE CÓCORAS SOBRE A TERRA, AS ÍNDIAS DEIXAVAM O SANGUE ESCORRER LIVREMENTE E PENETRAR O SOLO “PARA NUTRIR A TERRA E GARANTIR A MANUTENÇÃO DA VIDA NO PLANETA”. ERA UMA ESPÉCIE DE RETRIBUIÇÃO À ENERGIA VITAL, UM JOGO DE EQUILÍBRIO QUE MANTINHA FORTE A LIGAÇÃO DAS MULHERES COM A TERRA E COM GAIA – TERRA COM “T” MAIÚSCULO.

Já faz algum tempo, li um texto de uma líder indígena que dizia que os homens entraram em guerra na Terra quando as mulheres deixaram de jorrar seu sangue sobre a terra. Fatos históricos à parte, faz muito tempo que as mulheres não menstruam sobre a terra, sequer sentem o cheiro de seu sangue porque os absorventes industrializados trazem perfumes para disfarçar o aroma do sangue e confundir o olfato. A mulher anda tão distante de seu ciclo natural que sente nojo do próprio sangue, prefere não senti-lo, não vê-lo.

Há cinco anos, adotei o absorvente ecológico em meus “tempos da lua” . A experiência começou para alimentar minha curiosidade sobre como faziam as mulheres antes dos descartáveis – e também para ver se eu seria capaz de reduzir o lixo gerado com os descartáveis (que não são nem um pouco ecológicos). Sim, porque muitas de nós sequer conseguem imaginar o tamanho do incômodo de passar pela menstruação com paninhos laváveis. Não é verdade?
Neste feriado eu estava na ecovila conversando com o Hiroshi, amigo, idealizador da comunidade e agrônomo defensor dos orgânicos. O papo girava sobre como adubar a terra com o composto da cozinha, quando resolvi contar a ele que eu adubava algumas plantas em casa com o meu sangue menstrual. Parênteses: os absorventes ecológicos, feitos de tecido de algodão, ficam de molho na água durante 24 horas, antes de serem lavados com sabão de coco. Essa água recebe o sangue com muitos nutrientes e hormônios que são excelentes fertilizantes para a terra. Pois bem. Ele adorou a história e me pediu para doar um pouco dessa solução para ele, para que possa testar em algumas plantas. Achei engraçado e confesso que, por um momento, achei íntimo demais para compartilhar. Mas, em seguida, um pensamento simples tomou conta de mim: por que não? Que mal haveria em adubar a terra?

Bom, se você chegou até aqui no texto é porque se interessou pelo assunto ou, então, ficou tão intrigada(o) e enojada(o) que não conseguiu interromper a leitura. Seja como for, que bom que você chegou até aqui! Gosto dessas coisas estranhas que parecem chacoalhar nossos costumes. Lembra-me aquela história dos macacos no laboratório, conhece essa? É mais ou menos assim: Cinco macacos foram colocados numa jaula. No centro dela havia uma escada e, sobre ela, um cacho de bananas. Quando um macaco subia a escada para pegar as bananas, os cientistas jogavam água fria nos que estavam no chão. Depois de certo tempo, quando um macaco tentava apanhar as bananas, os outros o impediam, com uma grande surra. Após algumas brigas, um dos macacos foi substituído. O novato, é claro, logo tentou chegar às bananas, mas foi reprimido a tapas pelos demais. Tempos depois, ele já não tentava alcançar as bananas. Um segundo macaco foi, então, substituído e o mesmo ocorreu: levou uma surra antes que pudesse pegar uma banana, agora com a ajuda do primeiro macaco trocado. Em poucos dias, um terceiro macaco foi substituído, e depois um quarto e, finalmente, o último dos veteranos. Agora eram cinco novos macacos que, mesmo sem nunca terem tomado um banho frio, continuavam batendo naquele que tentasse comer as bananas. Diz a história que se pudéssemos perguntar a algum deles porque o grupo batia em quem tentasse subir a escada, a resposta seria algo do tipo “não sei, mas sempre foi assim”…
Estamos em tempo de rever hábitos arraigados, executados por repetição sem crítica ou reflexão. Antes de dizer que você não faria isso, que é nojento, que é coisa do passado ou da sua avó, experimente. As surpresas só ocorrem àqueles que tentam. A mulher precisa aprender a valorizar a menstruação como uma época de renovação e cura. Menstruar é natural, bonito e pode ser muito ecológico. Acredite, a terra irá agradecer. As plantas do meu quintal, pelo menos, ficaram muito gratas…

por Giuliana Capello

 

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A Outra

Nós mulheres ainda estamos pagando nossas contas com o mundo patriarcal, pagando pelas que nos antecederam, e que se amalgamaram a esse sistema. Ainda somos as devedoras pelo crime da insubordinação cometido por nossa mãe Eva contra o Criador, pelos anseios que Sophia tinha por seu Amado, assim como ainda somos cativas da reação pelo medo e temor despertado por Lilith, a Bruxa Primordial, em nossos antepassados.

A quem Lilith ameaça? Às Instituições, ao casamento estabelecido, às regras, à submissão, ao sistema de valores advindos do patriarcado.

Fomos todas separadas e isoladas desde nossa mais tenra infância em boa ou má, feia ou bonita, desejável ou não desejável, casável ou titia, Lilith ou Eva, enquadrada ou bruxa, esposa ou a outra.

Nosso destino foi a dualidade e nos agarrando em uma das extremidades como em uma brincadeira de cabo de guerra, cada vez mais nos obstamos ao contato com o extremo oposto, nosso rival e amiga, uma parte de nós mesmas, agora encarada como nossa antagonista.

Tal qual Hera, a deusa-esposa do Olimpo grego, projetamos em uma outra tudo o que somos capazes de entender como o mal, e isentamos de culpa por seus erros, o masculino.

Uma vez mais ferindo, castrando, agredindo e amputando a nós mesmas, em proporções iguais, ou ainda maiores, do que o ambiente em volta e o sistema foram capazes de fazer por nós.

Carregamos o sistema de valores vigente em cada uma de nós, ele está em nós e atua por nosso intermédio.

Nos esquecemos do quanto necessitamos de nossa sombra, tão negligenciada, que se encontra lá na outra ponta na brincadeira de cabo de guerra.

Cada uma de nós, ao longo de nossa vida, precisa soltar a ponta do cabo, ir pouco a pouco enrolando a corda e ir se aproximando da aceitação plena de nossa sombra rejeitada, se almejamos nossa totalidade.

in wwwjaneladaalmablogspot.com

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